28/12/2008
O trânsito que mata impunemente
Coincidentemente, no mesmo dia do enterro dos primos Gutemberg e Ludmila, dois adolescentes – um de 14 e outro de 16 anos – mortos em acidente na Vila Lucy, em Goiânia, provocado por motorista supostamente alcoolizado, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) publicou segunda-feira resolução tornando mais criteriosa a emissão de Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para envolvidos em crime de trânsito.
Dehovan Lima
Bem-vinda a medida. A partir de 1º de julho do próximo ano, o condutor condenado por delito de trânsito terá de passar por avaliação física, mental e psicológica, além de fazer novas provas sobre legislação de trânsito e de direção veicular, isso tudo, depois de cumprir a pena.
Com a resolução, todos os Detrans do País terão de agir de uma única forma em relação ao fornecimento de novas carteiras aos que foram condenados por delitos de trânsito. Até agora, sem uma regra nacional, cada órgão agia diferentemente. Em geral, na sentença, o juiz determina a apreensão da carteira e estabelece a pena a ser cumprida. De acordo com as normas publicadas no Diário Oficial, os Detrans terão 48 horas para exigir do condenado que entregue o documento de habilitação. Os condutores de veículos envolvidos em acidentes graves também terão de passar por avaliações iguais às daqueles que foram condenados por delito de trânsito, caso a defesa que venha a fazer no processo administrativo não seja acolhida. Nesse caso, também terá de entregar a CNH em 48 horas. A diferença é que, por não ter de cumprir pena, poderá requerer a abertura de processo para adquirir uma nova carteira sem ter de aguardar um longo prazo.
Tomara que mais esta medida contra a selvageria do nosso trânsito não vire letra morta, como, parece, vai acontecer com a lei seca, de apenas seis meses, por absoluta falta de vontade e determinação das autoridades de trânsito.
Anunciada com grande estardalhaço, a lei seca provocou mudança de comportamentos nos primeiros meses de vigência e chegou, mesmo, a ter reflexo nas estatísticas de acidentes e mortes no trânsito. Porém, lamentavelmente, só agora começam a ser punidos motoristas flagrados embriagados ao volante. O assunto foi manchete da edição de 20 de dezembro, do POPULAR – Depois de 6 meses, lei seca suspende motoristas bêbados –, que mostrou de forma crítica a morosidade na punição a condutores que se arriscam na perigosa associação de álcool e direção.
Tragédia anunciada, no dia seguinte, o acidente na Vila Lucy ceifou duas vidas precocemente. Quantas mortes assim serão necessárias para que irresponsáveis sejam banidos do trânsito?
Há apenas duas semanas, também em um domingo, outro motorista bêbado provocou trágico acidente no Jardim Mariliza, em Goiânia, igualmente com duas mortes, as irmãs Zileide e Ivanilde Pereira de Deus, de 11 e 8 anos, que ele levava no carro que conduzia. Submetido a teste de bafômetro, Alex Pires de Santana, de 24 anos, tinha quase cinco vezes mais álcool no sangue que a quantidade permitida por lei. E, pior, portava uma pedra de crack, droga derivada da cocaína.
No caso do acidente na Vila Lucy, a Polícia Militar suspeita que o motorista que atropelou e matou os adolescentes estava alcoolizado, com base em teste visual ao qual foi submetido minutos após o desastre, já que ele, segundo a PM, se negou a fazer o teste de bafômetro e submeter-se à coleta de sangue para a realização de exame de dosagem alcoólica. O tal teste visual, que consiste em detectar como a pessoa se porta diante de determinada situação por meio de gestos, palavras e atitudes, teria constatado que o motorista José Ricardo de Barros estava alcoolizado.
Sob amparo legal e morosidade processual, a irresponsabilidade de quem insiste em dirigir alcoolizado ainda fará muitas vítimas, como Gutemberg, Ludmila, Zileide e Ivanilde...
Dehovan Lima é editor de Capa do POPULAR
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25/05/2008
O papagaio e a cidade
No bairro onde moro, há um papagaio que acorda a vizinhança todo santo dia por volta das 6 horas. Um verdadeiro despertador, com hora marcada e sons para todos os gostos. O bicho cantarola música sertaneja, músicas religiosas, às vezes – quando erra –, parece se irritar e repete toda a ladainha de novo; imita aqueles antigos entregadores de gás que passavam em determinados dias à porta das casas fazendo barulho ensurdecedor (acho que nem existe mais isso), chama uma tal de “Raquel” (sabe-se lá quem é Raquel!?). E o pior: a “conversa” solitária dura mais ou menos uma hora.
Dehovan Lima
Um pouco mais tarde é a vez do leiteiro. “Óia o leite, óia o leite”, berra o carro de som, por volta das 9 horas. Aos sábados e domingos, some-se o cântico da igreja ao lado, salvo engano, às 8 horas. Ao anoitecer um boteco fica “ligadão”, inclusive com música, até meia-noite, 1, 2 horas da manhã, de segunda-feira a sábado. E durma-se com mais barulho: tem ainda o carro da pamonha, das frutas e verduras, do doce, da melancia, o outro que anuncia, nos fins de semana, logo cedinho, ofertas do supermercado, do açougue, e por aí vai. Ah, tem também um carro de som de um pretenso candidato a vereador que sai às ruas mobilizando a população para o funcionamento (questionável) de uma feira livre no bairro.
Antes que o leitor atribua as observações a coisa de gente ranzinza, cricri, trato logo de me defender: são esses e outros barulhos comuns da cidade, particularmente de uma capital, mas que, em excesso, incomodam, em maior ou menor escala, seus moradores. Quem não é afetado por esse tipo de barulho no bairro onde mora, exceção feita, claro, para condomínios fechados?
Nos últimos dois anos, Goiânia discute seu Plano Diretor, instrumento de fundamental importância para o ordenamento da vida urbana. Aqui, acolá, uma polêmica mais intensa, como a questão do chamado Índice de Grau de Incomodidade (GI), que recentemente dominou a discussão da classificação dos templos religiosos que se multiplicam na capital na proporção do crescimento do número de fiéis e, por último, na instalação de agências bancárias em ruas ou avenidas por causa da previsão (ou não) de vagas de estacionamento.
Um capítulo à parte é o absurdo do funcionamento (sem alvará) de escolas e faculdades particulares na cidade, com impactos desastrosos no trânsito, no caso do Setor Bueno, verdadeira incomodidade, para usar o termo técnico (e feio). O assunto, levantado pelo POPULAR, resultou na revelação emblemática de que a Câmara de Goiânia fora construída também sem a licença da Prefeitura exigida dos cidadãos comuns. E, depois, como o leitor já sabe, na flagrante seqüência dos sem-alvarás: os prédios do Paço Municipal, do Ministério Público e do Centro Cultural Oscar Niemeyer. Em resumo, como reconhece a Seplan, a maioria dos prédios públicos federais, estaduais e municipais instalados em Goiânia.
Mas onde entra o papagaio na história? Na tal incomodidade, sem dúvida. Por conta própria, arrisco classificar o bichinho de minha vizinhança – fora de seu hábitat l e preso em uma gaiola – no grau máximo de incomodidade definido no Plano Diretor, acho que o GI 3, e faço um apelo à Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Câmara criada para investigar as escolas que inclua a história em suas preocupações. Absurdo nenhum! Os vereadores não estenderam a pauta de investigações da CEI às feiras livres, que também proliferam na cidade? A proposta não é tratar de todo tipo de barulho excessivo e equipamentos de grande impacto urbano, inclusive o funcionamento de usinas termoelétricas, questões de trânsito e até de acessibilidade?
A cidade exige mais respeito e precisa discutir seus problemas com seriedade. A Câmara é – ou deveria ser – um fórum legítimo. Porém, o flagrante do não-cumprimento, pelo Legislativo, de uma simples exigência legal – o alvará – expõe à Casa, infelizmente, à ilegitimidade. E o que dizer da Prefeitura, ela que tem a atribuição de emitir licença para uso do solo e alvará de localização e funcionamento? Cadê o Ministério Público estadual, que investiga a atividade sem alvará de escolas e faculdades particulares, mas também funciona na mesma situação há sete anos?
Dehovan Lima é editor de Capa do POPULAR.
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18/02/2008
A menina de Luziânia quer ser professora
Dehovan Lima
Apoiado em um cabo de rodo, improvisado como bengala, e conduzido por uma agente policial, Raimundo Gomes da Silva, de 61 anos, caminha ou aparenta caminhar com dificuldade ao chegar ao Centro de Prisão Provisória de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, após ser detido em um ônibus na GO-010, que viajava de São Paulo para Brasília.
Publicada na capa do POPULAR de sábado, a imagem do homem acusado de manter em cárcere privado por quase cinco anos uma menina, hoje com 19 anos, mãe de dois filhos dele, parece não retratar fielmente a pessoa que a jovem vítima aponta como extremamente violento, que a ameaçava de “arrancar a cabeça e colocar em um poste” ou “jogar fora, jogar bola com ela”. Os detalhes da sordidez foram contados por ela em entrevista à repórter Paula Rossi, da TV Rio Vermelho, publicada na mesma edição do jornal.
Uma monstruosidade, que igualmente parece não combinar com o senhor que tem idade de avô. Mas a polícia não acredita nas histórias do homem, que “é dissimulado e deve estar mentindo”, na opinião da delegada Dilamar Aparecida de Castro sobre o depoimento em que deu sua versão para as acusações que pesam contra ele – estupro, atentado violento ao pudor, cárcere privado, receptação e ameaça. A polícia também vai investigar suspeita de homicídios – a garota fala de vários, inclusive da morte do próprio filho, segundo fruto da relação forçada que tiveram, e que ele teria “enterrado no porão”.
Em meio à sucessão de casos absurdos de violência contra adolescentes a que o País assiste, como a manutenção de meninas em presídios masculinos e a execução de jovens infratores por policiais em Goiânia, uma revelação da garota de Luziânia – vamos chamá-la assim – faz aumentar a revolta e a frustração com o que demonstra omissão e negligência de quem deveria dar segurança à população, a polícia. Impossível não se indignar ao ouvir o relato do que mais parece um pesadelo, um filme de horror: “Com 13 anos eu engravidei. Minha mãe descobriu depois de uns quatro meses que eu estava grávida. Então, ela foi na delegacia e denunciou. Ele foi lá e tacou fogo no barraquinho onde a gente morava. Minha mãe voltou na delegacia e falou que ele tinha tocado fogo na nossa casa e a delegada falou para a gente ir embora. (Pasme, leitor). Fomos para Samambaia. Lá, a minha filha nasceu e, depois de quatro meses, a minha mãe foi assassinada”.
Resignada com sua sina – “ele me pegava, me perseguia na rua, andava atrás de mim” –, ela, obviamente, ficou com medo. “Voltei e ele me jogou no buraco. Eu fiquei dois anos ou mais lá e ele mantinha relação sexual comigo. Aí, eu engravidei”. Do filho que o homem teria matado e enterrado no porão. Sozinha com seu drama – o pai está desaparecido –, a garota, que diz ter sido mantida durante os dois anos presa a corrente no local, sem janela e sem porta de fundo e onde havia muito material pornográfico, conta que ainda fez um acordo com Raimundo, seu carrasco, sob condições impostas por ele: “Falou que se eu fizesse carinho nele lá fora, ele me tirava de lá (do buraco) e a gente viveria aqui em cima. Eu concordei”. Impotente diante do calvário, ela só conseguiu fugir e denunciá-lo graças a uma briga do homem no bar de sua propriedade, que o deixou ferido e o fez relaxar a vigilância.
É muito sofrimento para suportar, não só por uma criança, mas por qualquer ser humano. Mesmo assim, a menina de Luziânia, de família pobre, cujo drama teve início aos 10 anos, quando pedia dinheiro na rua, e agora finalmente está sob proteção da Justiça, ainda pensa no futuro: “Eu quero estudar, trabalhar e ser professora”.
Dehovan Lima é editor de Capa do POPULAR.
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20/07/2006
De sanguessugas e deboche do PCC
Na capa do POPULAR de terça-feira, 18, uma notícia conseguiu roubar minha atenção, momentaneamente voltada para interesses diferentes da leitura de jornais, por estar curtindo férias. Até mesmo mais do que a manchete do dia – Superlotação leva Hugo a desocupar leitos, outro capítulo do eterno drama vivido por doentes no Hospital de Urgências de Goiânia –, e do que o segundo destaque da página – O julgamento de Suzane –, que vai decidir o futuro da garota acusada de matar os pais com ajuda do namorado e do irmão dele.
Dehovan Lima
O título da notícia de tanta importância: CPI já tem nome de 100 envolvidos. Integrante da CPI dos Sanguessugas, o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) informou que são cerca de cem os parlamentares e ex-parlamentares acusados de envolvimento com a chamada máfia das ambulâncias. Uma centena! – pasme, leitor –, número fornecido em depoimento à Justiça de Mato Grosso por Luiz Antonio Trevisan Vedoin, um dos donos da Planam, empresa também acusada do golpe. Desse total, 90 têm mandato atualmente, entre eles 3 senadores. A lista, que atualiza a anterior dos 60 que haviam entregue suas senhas à Planam, é liderada por parlamentares do Rio, de Mato Grosso e da bancada evangélica – santo Deus!
De posse dessas informações, Gabeira, autor do livro O Que É Isso, Companheiro? – sobre a ação do grupo de esquerda integrado por ele que seqüestrou um embaixador americano no Brasil na época da ditadura, para trocá-lo por prisioneiros políticos que eram torturados –, tem em mãos material suficiente para outra publicação, quiçá outro roteiro cinematográfico de sucesso, a exemplo da produção homônima de Bruno Barreto, que chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
O deputado se diz impressionado com o número de envolvidos apontados pelo dono da Planam. Não sem razão. Além de parlamentares e ex-parlamentares, há entre 200 e 300 prefeitos que teriam sido beneficiários de propina. Diante dessas denúncias, a CPI dos Sanguessugas, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou terça-feira lista de 57 parlamentares já denunciados pela Procuradoria-Geral da República e que são alvo de inquéritos criminais por envolvimento no esquema de superfaturamento de ambulâncias e outras irregularidades relativas ao Orçamento da União. A pouco mais de dois meses das eleições, nada mais salutar que investigações, mantidas em sigilo por solicitação do Supremo, avancem a ponto de os demais nomes também chegarem ao conhecimento do eleitor.
A prática de corrupção que mancha o Congresso brasileiro, a exemplo desse caso de compra superfaturada de ambulâncias, chegou a tal ponto que, além de incentivar a descrença dos eleitores com a instituição e até o protesto contraproducente via anulação do voto, também motiva discussões absurdas, como as verificadas em outra Comissão Parlamentar de Inquérito – a do Tráfico de Armas.
Em meio à verdadeira tragédia em que se transformou a violência em São Paulo, comandada de dentro de presídios, causou revolta em uns e satisfação em outros a provocação feita recentemente por um advogado do Primeiro Comando da Capital (PCC) ao se referir, na CPI, à malandragem no Congresso, onde acabou recebendo voz de prisão.
Por último, apesar da indignação da sociedade com a escalada do crime na capital paulista, esse sentimento misto volta à tona com diálogo travado entre o líder da facção criminosa, Marcos Camacho, o Marcola, e o presidente da CPI das Armas, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), segundo reprodução no blog do jornalista Josias de Souza, colunista da Folha de S. Paulo. Em resposta à afirmação de Moroni de que “o PCC existe para explorar os coitados dos presos que têm que sair para rua e trabalhar para eles” (líderes), Marcola questionou: “E o que é que os deputados fazem? Não roubam também? Roubam para c., meu”.
Durante o bate-boca, em que chegou a ser advertido por Marcola para não gritar, Moroni Torgan avisou o bandido que ele seria indiciado por causa da declaração, ao que o líder do PCC reagiu, desafiador: “Só porque deputado rouba eu vou ser indiciado?” Moroni respondeu: “Por desacato. Disso tu vais ser indiciado”.
Lamentavelmente, boa parte do Congresso merece esse deboche.
Dehovan Lima é editor de Capa do POPULAR.
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12/07/2006
A crônica policial da política
Amarildo e Garcêz são condenados à prisão; PF prende metade dos vereadores de Montes Claros; Acusado do assassinato de Celso Daniel foge, Partidos querem cassação de deputados.
Dehovan Lima
Esses eram quatro dos cinco títulos de uma das páginas de Política no POPULAR de sexta-feira, dia 7. O mais desavisado dos leitores poderia até pensar na possibilidade de um erro de edição. “Não seria noticiário de polícia, meu irmão?” Não e sim. No noticiário de polícia convencional, digamos assim, o destaque era Grupo dá golpe em hipermercado, reportagem de Orlando Carmo Arantes sobre um curioso caso em que oito pessoas com ajuda de uma funcionária de caixa conseguiram levar do Wal-Mart, sem pagar, mercadorias avaliadas em R$ 28 mil, entre elas laptops, DVDs, TV de plasma.
Misturada à crônica policial, a página de Política trazia uma notícia triste para o mundo político – Morre ex-governador de Mato Grosso Dante de Oliveira, que ganhou notoriedade nacional em 1984 ao apresentar emenda propondo eleições diretas para presidente da República. Que edição, leitor! Da mesma página, saíra também a manchete de capa do jornal: Vereador condenado a 14 anos por rombo no INSS. Lamentavelmente, pois no mesmo dia era destaque outra notícia importante de política, Candidatos entram em campo, sobre a abertura da campanha das eleições de outubro. O fato chegou até a ser cotado para manchete, mas caiu para segundo destaque diante da importância da decisão da Justiça de fazer o que a Câmara de Goiânia, por corporativismo, deixou de fazer em dezembro do ano passado: condenar os protagonistas do desvio de contribuições de servidores devidas ao INSS – um rombo de cerca de R$ 9 milhões, em valores atualizados.
Na época, O POPULAR registrou o fato na manchete de capa Vereadores salvam Amarildo e, internamente, com o título Vereadores preferiram pizza.
Mas o que a condenação de Amarildo, Garcêz e cia. tem a ver com a notícia do golpe no Wal-Mart, além de ambos serem crimes e da coincidência de sua publicação em uma mesma edição de jornal? Sem forçar muito a barra, dá para fazer um link – enviesado, é claro. O esquema de fraude montado na Câmara desviava contribuições previdenciárias de funcionários. Ao todo, nove pessoas – além do vereador Amarildo Pereira, o ex-presidente da Câmara Wladmir Garcêz e outros sete envolvidos – foram condenadas pela Justiça.
No caso do Wal-Mart, nove pessoas, igualmente, montaram o esquema de desvio de mercadorias das gôndolas do hipermercado, sem pagar, para suas casas. Na verdade, um golpe bem mais arriscado do que o da turma da Câmara, pois consistia em reunir pessoas para lotar carrinhos de eletroeletrônicos e levar ao caixa envolvido para a liberação. Isso tudo feito à luz do dia. O estratagema incluía a oportunidade do dia daquele fatídico jogo em que o Brasil foi despachado da Copa pela França de Zidane. O movimento era pequeno no hipermercado. Tudo ia dando certo, mas a fraude caiu porque a fila no caixa chamou a atenção de um supervisor.
A grande distância desse para o caso da Câmara é a disparidade do valor do golpe – de alguns milhares para milhões. E o pior de tudo, no Legislativo goianiense, praticado por agentes públicos, como diz trecho da sentença do juiz Alderico Rocha Santos, da 5ª Vara Federal, sobre a condenação de Amarildo Pereira: “Trata-se de agente político, eleito pelo voto popular para ajudar na tomada de relevantes decisões envolvendo o destino da cidade de Goiânia, o que o torna depositário da confiança de parcela considerável da população, tendo a obrigação de zelar pela correta destinação do patrimônio público, ao invés de dilapidá-lo”.
Mais diferenças: Amarildo e Garcêz poderão recorrer da sentença em liberdade, ainda cabe recurso ao Tribunal Regional Federal e, em caso de questionamento da constitucionalidade, ao Supremo Tribunal Federal.
Quanto ao furto no hipermercado, descoberto pela polícia em menos de uma semana, os nove envolvidos certamente não terão fórum tão privilegiado.
Dehovan Lima é editor de Capa do POPULAR.
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07/02/2006
Chá-de-cadeira no consultório médico
Espaço a cada dia mais disputado, Cartas dos Leitores do POPULAR é sempre um interessante fórum de discussões de diversos assuntos que afetam a comunidade. Um verdadeiro termômetro da interatividade entre o jornal e o público, contribuindo com a formação de opinião acerca de questões diversas, das mais simples às mais complexas.
Dehovan Lima
A seção viveu recentemente momentos muito bons no episódio da absolvição pelos colegas do vereador Amarildo Pereira, acusado no escândalo do desvio de contribuições do INSS da Câmara. O fato, somado à declaração do vereador Túlio Isac, de que “a opinião pública não paga minhas contas”, foi alvo de manifestações de indignação da população durante mais de uma semana.
Regularmente, leitores discutem assuntos que são destaque na imprensa, como a epidemia de dengue em Goiás, o nepotismo no Judiciário, o pagamento de salários extras aos parlamentares, a crise política vivida pelo País, agressões ao meio ambiente, os casos de desaparecimentos e mortes de pessoas após abordagens policiais e até transferência de padres no interior. Comentam a atuação de parlamentares goianos no Congresso, reclamam do aumento do IPTU e ITU, de buracos em estradas, de coleta deficiente de lixo, falam de futebol, sexo, religião, etc.
Um tema freqüente de cartas em edições recentes, a demora para atendimento nos consultórios de médicos tem despertado interesse. Quem nunca passou por isso?
Seja na consulta com “hora marcada” ou por “ordem de chegada”, particular ou por convênio, a situação não é muito diferente. A exceção é para o serviço público, onde além da demora na fila pacientes reclamam de curta duração da consulta.
Com a palavra o leitor Pedro de Alcântara M. Silva, de Goiânia, em carta publicada dia 7 de janeiro sob o título Consultórios:
“As consultas médicas são agendadas com hora marcada, mas o paciente só é atendido de acordo com as conveniências do médico. A relação médico-cliente é regulada pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor, já que as pessoas que procuram os serviços médicos também têm suas atividades, não podendo ficar à mercê de horários indefinidos.
“Quando o atendimento é pelo SUS, em geral a consulta não demora mais que três minutos e alguns médicos sequer olham para o rosto da pessoa. É bom esclarecer que os médicos não estão acima do bem e do mal e tampouco da lei.”
O médico Gustavo Safatle Barros, de Goiânia, concordou com a crítica em carta publicada dia 21 de janeiro, sob o título Consultas médicas:
“As consultas realizadas por médicos ganham cada vez mais espaço nos meios de comunicação. Infelizmente, devido à falta de organização, os médicos nem sempre justificam os atrasos nas mais variáveis situações. Contudo, existem profissionais que seguem uma rotina bastante organizada. Nós, médicos, deveríamos tratar nossos pacientes também como clientes a fim de obtermos a credibilidade que a classe médica um dia teve. Concordo com o leitor que fez a crítica. Tenho certeza que o termo cliente em nada prejudicará a relação médico-paciente se ambos tiverem muita ética”.
Recentemente, acompanhando meu pai em uma consulta particular a um oftalmologista, tivemos de esperar mais de quatro horas na “sala de chá” até o momento do atendimento, que não demorou mais de dez minutos. O oftalmologista, entre as várias especialidades, é exemplo sintomático: um batalhão de pacientes, em quantidade proporcional à fama do médico, fica literalmente à mercê do atendimento. Não dá nem para desistir diante da demora, uma vez que ao chegar ao consultório, o cliente tem a pupila do olho dilatada. E tome chá-de-cadeira.
O presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM-GO), Iliam Cardoso, reconhece a demora no atendimento, mas ressalva que o desrespeito a horários é comum a outras atividades – bancos, aeroportos, supermercados etc. – e atribui o problema a fatores culturais, “característico dos países latinos”.
“Não se muda isso em um país que tem tradição e cultura de longa data de desrespeito a horário”, alega.
Professor no curso de medicina da Universidade Católica de Goiás, ele prega o respeito aos horários estabelecidos, mas critica a defesa de um padrão de atendimento baseado no Código de Defesa do Consumidor, com regras inflexíveis, e alerta para a necessidade de a relação médico-paciente observar aspectos biológicos, psicológicos e sociais. “O paciente não pode ser tratado como objeto ou mercadoria”, afirma.
Resquício de um tempo marcado por autoritarismo na relação médico-paciente, a demora nos consultórios é intolerável e requer mudança de comportamento de ambas as partes – do médico, em respeito ao paciente, e deste, em respeito a si próprio, fazendo valer seus direitos como cliente.
Dehovan Lima é editor de Capa do POPULAR.
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05/12/2003
O Leão e o bode
Depois de vários anos de espera dos contribuintes, o governo Lula decidiu reduzir de 27,5% para 25% a alíquota do Imposto de Renda para as pessoas físicas, aliviando a carga tributária que espolia os brasileiros, uma das mais pesadas do mundo.
Dehovan Lima
Boa demais para ser verdadeira, essa era uma notícia que trabalhadores do País inteiro queriam ver no jornal, no rádio ou na TV, a poucos dias do Natal. Em seu lugar, a notícia real de ontem “Câmara aprova prorrogação da alíquota de 27,5% para Imposto de Renda até 2005” frustrou quem acreditou no presente de Papai Noel. Um bom exemplo da indignação nacional foi dado pela apresentadora Ana Paula Padrão, ao anunciar no Jornal da Globo de terça-feira o desfecho da votação na Câmara dos Deputados: “Imposto no Brasil é coisa que só muda para aumentar. Provisório vira definitivo, compulsório não é devolvido, alíquota que sobe não desce jamais”, disse a jornalista.
A dose foi forte até para antigos aliados, como as centrais sindicais, que apostavam na redução e agora prometem “fazer barulho” nos ouvidos moucos da administração petista.
A decisão de manter a alíquota, acertada antes com governadores para ter êxito, segue uma lógica perversa. O governo federal não quer abrir mão da arrecadação – a permanência garante uma receita de R$ 1,8 bilhão ao ano – e dane-se o contribuinte.
Na véspera da votação pelos deputados, o Planalto usou a tática eficiente de colocar o bode na sala, ao condicionar a redução da alíquota máxima à criação de outra de 34% incidente sobre os salários superiores a R$ 2.115. A idéia de compensar uma carga menor para faixas salariais inferiores foi prontamente rechaçada pelos líderes do governo. “O Leão estava com fome”, ironizou um dos vice-líderes presentes à reunião que discutiu o assunto.
A base governista optou então por manobras regimentais e jogou pesado no plenário da Câmara, empregando métodos antes tão condenados pelo PT. Teve de tudo, desde a destituição do relator do projeto de lei, Antonio Cambraia (PSDB-CE), até a votação simbólica de um requerimento de preferência, em que os nomes dos parlamentares que votaram a favor não apareceram no painel eletrônico. “Covardes, não querem mostrar a cara. Isso aqui é uma farsa”, disse, aos gritos, o deputado João Alberto Goldmann (PSDB-SP). “Lamentavelmente, estamos vendo aqui uma página triste da história da Câmara. Foi um ato de força, que passou por cima do Regimento Interno”, disse o vice-líder do PFL, Pauderney Avelino (AM), sobre a destituição do relator. O rolo compressor do governo lembra tempo recente em que, durante votações importantes no Congresso, partidos de oposição – incluindo aí o PT – montavam painéis para denunciar o voto de parlamentar considerado traidor de interesses dos trabalhadores.
Depois da desastrada tentativa de recadastramento que deixou aposentados sofrendo na fila da Previdência por vários dias até ser suspensa a medida do ministro Ricardo Berzoini, a prorrogação da alíquota do Imposto de Renda é mais uma demonstração de insensibilidade do governo Lula, que só faz aumentar a frustração de quem votou nele confiado nas bandeiras da campanha eleitoral, entre elas o alívio da carga tributária.
Num momento de desemprego em alta e de queda de renda dos brasileiros, a voracidade do Leão faz virar pó os raros aumentos salariais concedidos pelo Brasil afora.
Em meio a tudo isso, alegações da tropa de choque do governo para tentar justificar a ganância petista, como a do presidente da Câmara, João Paulo Cunha, de que o País continua em momento de dificuldades, são hipocrisia pura e vão na contramão das insistentes manifestações de otimismo, feitas em coro pelo presidente Lula, pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Afinal, o País está ou não preparado para crescer?
Como o projeto de lei que prorroga a alíquota do Imposto de Renda ainda precisa passar no Senado, resta uma esperança.
Dehovan Lima é editor de capa do POPULAR
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29/07/2002
CRÔNICA DA COPA
E Romário nem fez falta
Dehovan Lima
A manchete do POPULAR de 1º de fevereiro desagradou à grande legião de fãs de Romário que tanto irritou o técnico Luiz Felipe Scolari na fase de preparação do Brasil rumo ao penta. Responsável pela edição do título, sobre a goleada brasileira contra a Bolívia, no Serra Dourada, vou agora à forra.
Vida de técnico da seleção brasileira é bem diferente da que é levada pelo holandês Guus Hiddinx, herói na Coréia do Sul após a proeza da classificação inédita da noviça seleção do país à semifinal da Copa do Mundo.
Sem a corrente favorável de 1,3 bilhão de chineses, Felipão, ao contrário, teve de enfrentar a bronca de 160 milhões de “técnicos”. Apesar da escolha unânime para o lugar de Emerson Leão.
Foi mesmo muita coragem dele deixar Romário aos prantos e apostar fichas em Ronaldo, longe da forma que o consagrou como Fenômeno.
Agora, todos devem desculpas ao gaúcho pelo tanto que encheram. Até aqui, às vésperas da inédita final contra a tricampeã Alemanha, o baixinho do Vasco realmente não fez falta alguma. Os “R” que foram à Coréia e ao Japão já fizeram 14 dos 16 gols marcados pelo Brasil. Dois deles disputam a artilharia do Mundial. E ninguém mais se lembra de Romário. A verdade é que brasileiro tem memória curta também no futebol. Mas, calou por quê? Vão dizer, em defesa, que ele não desperdiçaria tantas chances como no replay contra a Turquia, vencido no sufoco, com gol de bico de Ronaldo. De bico, sim, e daí? Como na máxima de Dadá Maravilha, não existe gol feio. Feio é não fazer gol.
Um dos críticos de Felipão, o goiano Ernesto Dias deu a mão à palmatória e, às vésperas da semifinal, homenageou a seleção com um penteado em forma de chapéu, que agora ele diz tirar para o treinador brasileiro.
Como verdadeiros técnicos que se autoproclamam, os brasileiros deveriam ter antevido que a defesa – essa sim – seria motivo de preocupação nacional.
Se bem que, à exceção daquela falha técnica fatal de Lúcio diante da Inglaterra e de alguns erros ainda no início da Copa, os zagueiros não decepcionaram e chegaram mesmo a se superar.
Mas futebol no Brasil é assim mesmo. Presente em sete decisões consecutivas, tetracampeão em 94, vice por duas vezes, a seleção certamente estragará a atual lua-de-mel com a torcida caso não consiga o penta.
Dehovan Lima é editor de Capa do POPULAR
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